Ele entrou numa igreja e, desta vez, sentou-se. Ele não acredita em religiões: ali só se dirigia por causa da arquitectura, pintura ou escultura, ali só entrava pela observação, pelo conhecimento. Mas desta vez sentou-se e lembrou-se que há muito tempo não ouvia o silêncio. Há muito tempo não encontrava o silêncio. Talvez porque acredite mais em canções ou ocupações do que em religiões. Ali, naquele momento, rezava para que ninguém o encontrasse: chega de dar satisfações, chega de terem pena do indivíduo sozinho que não sabe do seu caminho mas não veio aqui pedir perdão por nada ou confessar os seus pecados. Ele estava simplesmente cansado. Transformara-se numa pedra da calçada, que já fora nova e parte de algo belo, mas agora estava pisada, lixada pelos sapatos de todos os que passam para chegar a algum lado. E ali ficava, uma pedra isolada, rodeada de musgo. Uma pedra que bem se poderia saltar e ser atirada para uma melhor calçada, para o outro lado da estrada. Não queria ser desrespeitoso mas poderia ter-se rido daquele pensamento sobre pedras num chamado local de culto ou salvação. Ele estava ali... Por estar. Pela calma. Não pelo culto. Não quer acreditar em nenhum deus, para si seria pôr poder em algo que não pode ver. Preferia ser o ser o seu deus, afinal o seu eu era o único omnipresente na sua vida, apesar de omnipotente não se encaixar de todo no seu vocabulário. Pois, se calhar por isso estava ali, porque não sabia o que fazer para compreender a sua falta de poder. E talvez o silêncio não o fosse ajudar mas também não seria rezar que lhe iria dar uma iluminação. Supondo que esse deus em que muitos acreditam realmente exista, ele concebia-o como um tipo cool, que não precisava de palavras ou situações específicas para ajudar o pessoal, que o importante seria a bondade, a simplicidade, a humildade e a honestidade. O bem. E via o suficiente para algum dia desviar quem merece para um caminho certo. Se demorava a lá chegar é porque também se pode enganar. Ou simplesmente porque os tipos cool devem todos pensar que é preciso cairmos para nos levantarmos e que precisamos de falhar, de errar, que quem não sabe o que é errar nunca vai saber nada da vida. Ele estava ali porque sim. Para respirar. Para se lembrar com quem é que tem que contar.
Ao sair acendeu uma vela. Não pela crença. Só porque a mais pequena luz pode ser uma fonte de iluminação.
Ao sair acendeu uma vela. Não pela crença. Só porque a mais pequena luz pode ser uma fonte de iluminação.

1 comentários:
Deixa eu dizer uma coisa pra ele, incrivelmente ele acredita em Deus, ele o cultua. Tudo isso sem perceber!
Lindas palavras!
(:
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